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18/07/2019

06:17:04

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Das Arquibancadas

Atleta trans têm vantagem sobre cis?

Caso da Superliga envolvendo o técnico Bernardinho e a atleta Tifanny reacende polêmica e deputado paulista apresenta projeto de lei sobre o tema

Atleta trans têm vantagem sobre cis?

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Uma mulher trans (que fez a transição de gênero) leva vantagem sobre uma mulher cis (que se identifica com seu gênero de nascimento)? É nessa hora que surgem uma série de especialistas de ambos os lados para responder a pergunta com base em cientificismo, mas a verdade é que a resposta definitiva simplesmente não existe ainda.

Por isso, é preciso entender a diferença entre ciência e cientificismo. Enquanto o primeiro termo abarca o resultado do conhecimento aprofundado de alguma área, o segundo é o conceito de que a ciência é superior a todas as outras formas de compreensão humana.

Por mais que de fato seja papel da ciência buscar respostas as mais sólidas possíveis para questionamentos como o que abre nossa discussão, o cientificismo muitas vezes age como religião para operar mais pela fé no estudo do que nos resultados em si.

Que vantagem é essa?

A mais nova polêmica (ou velha nova, já que requenta um assunto debatido à exaustão em 2017) gira em torno da presença da goianiense Tifanny de Abreu na Superliga feminina de voleibol. Curiosamente, o assunto só voltou a ser notícia depois que o time do consagrado técnico Bernardinho (Sesc RJ) foi eliminado da competição pelo Vôlei Bauru, defendido por Tifanny.

Na partida em questão a goianiense voou, estava focada e marcou 28 pontos. Em um deles, Bernardinho foi flagrado pelas câmeras da transmissão dizendo “homem, é foda”, estava armado o circo.

Enquanto a tempestade se desenrolava, o técnico se desculpou publicamente, explicou que se referia ao “gesto técnico” que a jogadora herda de seu passado no vôlei masculino e a elogiou. Do outro lado, Tifanny lamentou as críticas dirigidas a Bernardinho e afirmou que não havia se ofendido, mas em volta dos dois ainda rugiam ataques de todos os lados.

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O assunto tornou-se novamente tão popular que um deputado paulista, que tem uma história construída no karatê, chegou a apresentar um projeto de lei para que, em São Paulo, a participação de atletas em competições seja limitada pelo gênero presente em seu registro de nascimento.

Os números da liga mostram que não há muito fundamento para esse comportamento já que a atleta do Vôlei Bauru não aparece em nenhum Top 5 da competição, apesar de ser acusada de ter uma vantagem biológica. Nas palavras de Tifanny à VEJA, “quando a pessoa é gay, novinho e afeminado, chamam de mulherzinha. Aí cresce, realmente era uma mulher por dentro, vira trans e chamam do quê? De homem! Vão sempre atacar ao contrário”, afirma.

O que dizem os especialistas?

Ainda assim, a busca por propagar o que chama de “olimpismo” - misto de esporte com valores culturais e éticos entendidos como um estilo de vida -, o Comitê Olímpico Internacional (COI) reuniu seus oficiais e médicos em 2015 pela segunda vez para atualizar a exigências de elegibilidade para atletas trans e intersexuais (esses segundos são aqueles que apresentam características físicas comuns a ambos os sexos).

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Os contrários, como o fisiologista Turíbio Barros, se amparam na maior produção testosterona no organismo masculino e no desenvolvimento físico visto como atleticamente superior nesses corpos durante a puberdade. Anteriormente, essa visão levou o COI a permitir que apenas atletas que haviam feito a transição antes da puberdade competissem em suas novas identidades.

Os favoráveis, como a médica do Providence Portland Medical Center Joanna Harper, no entanto, discutem que o tratamento hormonal substitutivo culmina em alterações que podem ser ainda mais drásticas em atletas trans. Isso porque o corpo, desenvolvido à base de altos níveis de testosterona, por exemplo, sentiria a deficiência do hormônio como sustento atlético, perdendo em força, capacidade cardiopulmonar e velocidade.

Para todos os efeitos, mesmo com tantos argumentos contrários e outra boa soma de favoráveis, ainda não há nenhum estudo científico que prove um ou outro lado. E aí voltamos ao cientificismo do começo e ao medo, em especial em quem quer proibir a presença dos atletas trans. Buscando limitar a atuação destes, acreditamos em suposições que partem de experiências passadas e tornam-se definidores do presente e do futuro.

De fato, a ciência médica sabe como a testosterona age no desenvolvimento do corpo masculino, mas não a que ponto a ausência e substituição do mesmo pode influenciar nesse mesmo corpo diante de esforços atléticos de alto rendimento. Simplesmente não chegamos lá ainda porque a necessidade de fazer essa avaliação é muito recente. Não se faz ciência do dia para a noite.

O que fazer então?

E como ficamos então se não há consenso científico? Agimos como em lamentáveis falhas passadas, quando determinaram que um indivíduo não tinha alma por conta da cor de sua pele, que por isso devia ser tratado como inferior? Seguimos deixando as pessoas trans sem lugar no esporte, sem identidade?

Aqui deixo a imparcialidade para fazer uma sugestão, mas antes faço uma reflexão. Fazer a transição exige da pessoa não só longos e caros tratamentos hormonais como intervenções cirúrgicas complexas. Tudo isso é feito em busca do simples direito de poder olhar no espelho sem sentir-se preso em uma caixa cujo exterior não representa o interior.

Nada nesse processo é fácil. Nenhuma das decisões são simples. Consequentemente é difícil acreditar que alguém recorra a esse recurso apenas para “ter vantagem” em uma modalidade esportiva.

Antes de tudo, a pessoa trans busca aceitar-se, mas a aceitação alheia ajuda bastante. Assim, será que o certo é mesmo estabelecer proibições ao invés de exercitar a tolerância e o bom-senso, de combater o preconceito já tão enraizado mesmo sem medidas como a do deputado?

Vale ressaltar que, além de Tifanny não aparecer em nenhum Top 5 da liga, sua equipe, apesar de ter eliminado o time de Bernardinho, foi apenas a sexta colocada da fase classificatória da Superliga. Esse quadro parece provar muito mais um trabalho coletivo de superação do que qualquer vantagem fisiológica individual.

E você, como vê a discussão? Comente aí sua opinião sem se esquecer de manter o bom nível do debate. Aproveite também e siga o Instagram da Praça (@pracaesportiva) para não perder nenhum conteúdo.

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